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Márcio Roberto Goes

Meu epitáfio

25/10/2025

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(Márcio Goes parafraseando Sérgio Brito -Titãs)



    Devia ter deixado de ser quem não sou.... Devia ter feito aquilo que meu coração mandou... Devia não ter sido aquela pessoa que os outros queriam... Devia ter sido aquela pessoa que eu queria... Devia querer ser aquela pessoa que sou... Devia lutar para que os outros quisessem que eu fosse aquilo que sou... Devia ter lutado para que as pessoas ao meu redor quisessem ser aquilo que são, não o que os outros quiseram... Mas não fui, mas não sou... Ou será que fui?... Ou será que sou?...

    Devia ter sido aquele professor que sempre fui... Devia ter sido aquele escritor que sempre fui... Devia ter sido aquele locutor, carpinteiro, marceneiro, jornalista, amigo, irmão, companheiro, palhaço que sempre fui... Devia ter acreditado mais nos elogios e menos nas críticas construtivas de quem nunca construiu nada... Devia ter sido aquele “amigo certo nas horas incertas”, ou o amigo incerto nas horas certas... Devia ter prometido menos e cumprido mais... Não devia ter acordado tão tarde aquele dia... Devia ter dormido mais cedo aquela noite... Naquele fim de semana, deveria ter dormido mais tarde e acordado bem mais tarde... Devia ter construído mais pontes e menos muros nas relações humanas ao meu redor... Devia ter sido canal de união, nunca de discórdia... 

    Queria ter feito mais por aqueles que fizeram tanto por mim... Queria ter orado mais por aqueles que quiseram me derrubar… Queria ter tempo e discernimento para exercitar mais a gratidão... Queria ter valorizado mais as coisas simples da vida: os presentes simples e singelos, as palavras simples e transformadoras, as atitudes simples que se agigantam nas intenções, as coisas, os alimentos e as roupas simples que nos tornam mais nobres a cada dia, mais humanos e divinos, mais felizes e inquietos...

    Queria ter promovido a paz... Porém, queria ter tumultuado mais a fim de que se fizesse justiça... Não queria ter me calado diante daquelas injustiças e calúnias... Não queria ter sido tão submisso... Não queria ter deixado aquela pessoa confortável para levantar a voz e baixar o nível das palavras...

    Devia ter sido um oponente a altura do opressor... Devia ter desmascarado o tirano... Devia ter saído daquele local muito antes. Ou será que deveria ter ficado e mantido a luta?... Devia ter antecipado a felicidade e retardado o desânimo... Não devia ter abandonado o barco tão cedo... Não devia ter me rendido ao condicionamento enraizado que não deixa o lado humano fluir... Não devia ter desviado do caminho correto só porque os outros gostam de mascarar o caminho errado...

    Devia ter feito mais... Devia ter sido mais rebelde e menos dócil, mais transformador, protagonista da própria história... Devia ter ouvido mais os amigos de verdade e menos os traíras... Devia ter amado antes e com mais intensidade, odiado menos e em doses homeopáticas... Devia ter dito aquelas verdades com mais convicção e me calado na hora reservada ao silêncio que incomoda os injustos...

    Devia ter lido mais e visto menos celular... Devia ter sido mais aquele escritor com palavras polêmicas para defender a educação pública e menos relapso abstendo-me da responsabilidade do “nada a declarar”... Devia ter sido a voz dos emudecidos pela tirania, as pernas dos aleijados pela discriminação, os ouvidos dos ensurdecidos pela ditadura mascarada na cadeira daqueles que pensam que mandam, o cérebro daqueles que são retardados pela mídia e pelas “fake news” que preferem pensar por eles... 

    Por fim, não deveria ter deixado calarem minha voz, muito menos, me escutarem, sem me ouvir, concluírem, sem saber, julgarem sem conhecer...

  



 

Márcio Goes

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