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Pedro Vinicius Barreto

O afeto tem ponto cego?

16/10/2026

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É fácil gostar de quem nos conhece pelo nome. De quem cumprimenta nossa família, pergunta como estamos e lembra de uma conversa antiga. Esses pequenos gestos criam vínculos. Na política, também. Mas o que acontece quando gostar de alguém começa a nos impedir de questionar suas decisões?



Em O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry nos apresenta uma ideia que atravessa gerações: “O essencial é invisível aos olhos”. A história nos convida a perceber o valor dos vínculos e a responsabilidade que nasce deles. Levando essa reflexão para a cidadania, cabe uma pergunta nossa: podemos olhar com o coração sem fechar os olhos para o exercício do poder?



Quem nunca defendeu alguém porque é amigo, porque ajudou em um momento difícil ou porque “sempre foi uma pessoa boa”? Essas experiências têm valor. Entretanto, quando a conversa envolve orçamento público, saúde, educação e o futuro de uma cidade, precisamos considerar também aquilo que alcança pessoas que não conhecemos.



Quantas foram atendidas? A espera diminuiu? O recurso foi aplicado como previsto? A iniciativa continuou depois da fotografia? São perguntas simples, mas podem ficar difíceis quando dirigidas a alguém de quem gostamos.



É nesse desconforto que o diálogo precisa amadurecer. Uma amizade pode comportar discordância. A admiração pode acompanhar uma cobrança. E reconhecer um acerto não nos obriga a concordar com a próxima decisão.



Na vida, nos aproximamos pelas histórias que compartilhamos, pelas experiências e pelas maneiras de enxergar o mundo. Cativar envolve tempo, atenção e responsabilidade pelo vínculo. Na política, conhecer alguém também passa por acompanhar suas escolhas e os efeitos que elas produzem.



Os números ajudam a contar essa história. Dizer quanto foi investido é apenas o começo. Precisamos saber o que mudou, para quem e em quanto tempo. A redução de uma fila de atendimento pode representar menos dias de dor e uma volta mais rápida ao trabalho. Uma vaga na creche pode permitir que uma mãe ou um pai trabalhe sabendo que seu filho está sendo cuidado.



Por isso, um resultado precisa ser compreendido junto das vidas que ele alcança. O valor aplicado, o serviço entregue e a experiência de quem foi atendido ajudam a avaliar uma decisão pública.



Talvez a inspiração de O Pequeno Príncipe esteja justamente nessa disposição para conhecer além da aparência. No exercício da cidadania, isso inclui escutar as pessoas, conferir informações e permitir que novas evidências mudem nossa opinião.



O afeto pode abrir a conversa. A confiança pode torná-la mais franca. Quando existe espaço para perguntar e cobrar, o vínculo também amadurece.



Porque gostar de alguém não deveria nos custar a liberdade de enxergá-lo.

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