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As refeições ocupam culturalmente, principalmente no Brasil, uma posição especial. O almoço, por exemplo, define o meio-dia. Metade de um dia da vida de uma pessoa que possui sonhos, desejos, metas, amores e medos. O debate de ideias deveria ser um exercício prático, um ato pragmático, isto é, objetivo e construído a partir de argumentos e não de achismos. Simples e prático.
Ser simples e prático é o que define um prato feito, o tipo de refeição mais comum na realidade do povo brasileiro, de cada cidadão que, de forma representativa, elege pessoas que se colocam a disposição para reunir as ideias de muitos cidadãos e a partir da costura dessas ideias defende o interesse público, com ênfase no público de seu interesse.
O autor Norberto Bobbio (2001) descreveu a democracia como direitos de liberdade e o reconhecimento de direitos sociais e de justiça, separando o que é o direito individual do direito coletivo, fazendo com que nós, pessoas comuns, chegássemos à conclusão: se democracia significa governo do povo, pelo povo e para o povo, só existirá de verdade quando o a pessoa comum ter poder de decisão para construção do próprio futuro. Mesmo as eleições sendo uma ferramenta, é o povo quem realmente detém do poder na democracia.
Aparentemente, nesse ponto que tudo desanda. O arroz queima, a carne passa, o prato feito, que deveria ser simples e prático, fica bagunçado. Pois a reflexão é natural: quem nunca ouviu que política, futebol e religião não se discutem? Ou, num cenário infelizmente comum, quem nunca discutiu política com alguém numa mesa durante a refeição e estragou o clima?
É no cotidiano que se constrói a democracia, ao conseguir manter o diálogo sendo educado na conversa, principalmente com a família à mesa, que se inicia o exercício de cidadania e educação política. Não saber ouvir e não aprender com os argumentos opostos desgasta, por isso, o pensador italiano nos traduziu o debate político de uma forma simples.
Muitas conversas terminam em acordo, as pessoas envolvidas encontram um ponto em comum e param o debate, mas nem sempre é assim. E quando não há acordo, é preciso que se preserve a ideia. Assim, o argumento continua existindo e a conversa pode fluir. A partir do momento que o argumento deixa de existir, a conversa passa a ser sobre quem debate. Então precisamos refletir: quando estamos conversando sobre política, o assunto continua sendo segurança pública, acesso a educação, saúde universal ou estamos defendendo alguém, um grupo ou a nós mesmos por vaidade?
Portanto, a receita para nossa refeição de hoje ter sucesso são temperos como o diálogo, a possibilidade de receber uma nova informação, compreender outras ideias prestando atenção nos argumentos.
Desse modo, o prato feito da democracia se serve no cotidiano, fortalecendo o cidadão como protagonista, e começando no lugar mais importante: a família.
REFERÊNCIAS
BUENO, Roberto. A democracia e seus fundamentos em Norberto Bobbio. Eidos, Barranquilla, n. 12, p. 88-118, jun. 2010. Disponível em: http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1692-88572010000100005. Acesso em: 15 set. 2026.
BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Tradução de Carmen C. Varriale et al.; coordenação da tradução de João Ferreira. 11. ed. Brasília, DF: Editora Universidade de Brasília, 1998. 2 v.